terça-feira, 20 de agosto de 2013

O silêncio de Deus


“Deus é aquele que sempre se cala desde princípio do mundo;esse é o fundo da tragédia.” 
Unamuno.

Onde te escondeste?

Estes olhos foram estruturados para a posse, isto é, para a evidência. Quando acabam por dominar, distinta e possessivamente, este mundo de perspectivas, figuras, cores e dimensões, os olhos descansam satisfeitos, porque já realizaram seu objetivo, chegaram à evidência.
Estes ouvidos, por sua dinâmica interna, estão destinados a aprender o mundo dos sons, harmonia  e vozes. Quando atingem seu objetivo, aquietam-se, sentem-se realizados.
E assim, diferentes potências armam a estrutura humana:
Potência intelectiva, intuitiva, visual, auditiva, sexual, afetiva, neuro vegetativa, endócrina... Cada potência tem seus mecanismos de funcionamento e seu objetivo. Ao alcançarem o objetivo, as potências descansam. Antes, estão inquietas. Em resumo, toda as potências do homem e o próprio homem foram estruturados para a evidência. (posse)
Mas aqui está o mistério: o  homem põe em funcionamento todos os mecanismos e as  potências, uma por uma alcançam seu objetivo; todas elas ficam satisfeitas e, entretanto, o homem fica  insatisfeito. Que significa isso? Quer dizer que o homem é outra coisa  e mais do que a soma de todas as potências; é que o elemento especificamente constitutivo do homem é outra potência enterrada, ou melhor, uma superpotência que está por baixo e sustenta as demais.
Eu explico.
Nascido de um sonho do eterno, o homem é não só um portador de valores eternos mas é, ele mesmo, um poço infinito, porque foi  sonhado e moldado de acordo com uma medida infinita. Incontáveis criaturas jamais chegarão a encher esse poço. Só um infinito pode ocupá-lo por completo.
Sendo fotografia do invisível e ressonância do silencioso, o homem carrega em seus ancestrais mais primitivos forças de profundidade que, inquietas e inquietantes, emergem, suspiram e aspiram, em perpétuo movimento, na direção de seu Centro de Gravidade, onde possa ajustar-se e descansar, esperando alcançar a caça.
Cada ato de fé e oração profunda é uma tentativa de posse. Acontece o seguinte: essas forças de profundidade são postas em funcionamento mediante os mecanismos da fé. O crente, como uma cápsula espacial, instalado sobre um poderoso foguete, que são as referidas forças, vai se aproximando de seu Universo para possuí-lo e descansar. E, em determinado momento da oração, ao chegar em um umbral de Deus, quando o crente tinha a impressão de que seu Objetivo estava ao alcance da mão, Deus se desvanece como um sonho, convertendo-se em ausência e silêncio.
O crente fica sempre com um travo de frustração. Essa decepção sutil deixada pelo “encontro” com Deus é intrinsecamente inerente ao ato de fé. Dessa combinação, entre a natureza do homem e a de Deus, nasce o silêncio de Deus: nascidos para possuir um Objetivo Infinito, como este está além do  tempo, nosso caminhar no tempo tem que ser necessariamente  na ausência e  no silêncio.
Ao mesmo tempo, a vida da fé é uma aventura e uma desventura. Sabemos que a Palavra de Deus tem um conteúdo. Mas, enquanto estivermos a caminho, nunca teremos a evidência de possuí-lo vitalmente ou de dominá-lo intelectualmente. O Conteúdo estará sempre em silêncio, coberto pelo véu do Tempo. A eternidade consistirá em descerrar este véu. Enquanto isso, somos caminhantes porque sempre O buscamos e nunca O “encontramos”.
Frei Inácio Larrañaga.


2 comentários:

(CARLOS - MENINO BEIJA - FLOR) disse...

Bem... talvez seja preciso fazer por merecer pra conhecer todo esse divino mistério. Beijos, amiga.

Beatriz Bragança disse...

Minha querida
A vida é uma passagem,uma viagem,que termina quando voltarmos para Deus.
Enquanto vivermos,devemos tentar seguir os ensinamentos de Jesus Cristo.
Viver é já um «esplendor» Agradeço diariamente a Vida que Deus me deu.
Muitos parabéns pelo texto que escolheu.Dá que pensar!
Tenha um ótimo domingo.
Beijinhos da
Beatriz

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