quarta-feira, 26 de outubro de 2011

As duas canções do homem...



As duas canções do homem
e os sons secretos da cítara indiana


 Bom lembrar, a quem não sabe, que a cítara é composta de duas camadas de cordas super postas, uma sobre a outra, muito próximas, sem nunca se tocarem. A camada de cima é sensibilizada pelo músico, e a de baixo não pode nunca ser tocada pelos dedos.

Quem pouco entende dos segredos sonoros pode perguntar-se por que razão um instrumento musical tem cordas que não são tocadas.
A beleza desse mistério está justamente na harmonia que enlaça as duas camadas.

Os dedos não tocam a de baixo para que suas cordas possam vibrar pela magia de uma coisa muito mais sutil que os dedos.
Tangidas pelos sons que brotam das primeiras, elas reverberam e fazem nascer uma outra música, diversa daquela que o artista produziu.

Eis o segredo.

Eis a sensibilidade.

Olhemos agora para nós.

Quem sabe sejamos cítaras humanas, que vivem dentro de um encanto chamado vida, provocado pelo carinho criador de Deus;
Lá dentro, no fundo de nossa essência, estão as segundas cordas de uma única verdade, que os dedos nunca tocam, mas que fazem ouvir uma outra voz, a vibrar pelos escaninhos do silêncio...

 

Vem de lá uma canção imortal, jamais tocada, mas que, se ouvida, pode dizer muito de nós. Talvez seja esta a melodia diferente que os bons médiuns ouvem.

Aqueles que leem com amor o não dito das palavras humanas, separando a mentira da verdade, o joio do trigo, e escolhendo o bem. Talvez seja, essa música oculta, a melhor definição de amizade.
Afinal, o que um amigo faz senão educar-se para escutar nosso silêncio, que às vezes busca um abraço, um momento de atenção para aplacar sua melancolia?

Um amigo é também algo mais. É aquele que faz do seu sossego um recanto confiável, onde o outro pode guardar seus segredos e não ter medo de perdê-los.

Um amigo é aquele onde nossa segunda pauta encontra eco, porque sabe que no âmbito da amizade a solidão é um convite ao recolhimento, para que sejamos ouvidos, para que possamos reverberar.

Nos braços de um amigo, nossa solidão se dilui no suave aroma da partilha. Você, a quem muitos consideram verdadeiro irmão, pode treinar os ouvidos do sentimento para escutar uma nova melodia.

Preste, porém, menos atenção no que as pessoas irão tocar e mais nos sons daquelas cordas que nunca serão tangidas. Aproveite, também para apreciar a beleza da música que brota de todo lugar.

Aí escutará a segunda canção de Deus, convidando-o a que habite uma realidade nova: a de ser, finalmente, um bom e melhor amigo, que com muito amor, aprendeu a chamar os outros para fora da solidão.
Rubem Alves - 1993 - Revista Reformador




4 comentários:

Orvalho do Céu disse...

Olá, querida amiga
A harpa é um instrumento delicado e seu toque suave enternece à alma da gente...
Não é à toa que os salmistas a utilizavam...
O nosso interior é uma fonte de ternura...
Lindo post!!!
Bjm de paz

Valéria disse...

Oi Ieda!
Muito bonito este pensar. A cítara é um instrumento ímpar com sons encantadores. Descobrir este som que só o coração entende está o segredo da amizade.
Beijos e um ótimo dia!

Anne Lieri disse...

Ieda,que linda essa msg de Rubem Alves!Temos mesmo muito a aprender sobre a vida e as pessoas!Adorei sua escolha!bjs,

✿ chica disse...

Que lindo texto e com sensibilidade poderemos ouvir os sons da cítara dentro de nós. beijos,chica e tudo de bom!

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