quinta-feira, 21 de abril de 2011

A última ceia.


O ponto alto na celebração da Páscoa judaica é a ceia, o Seder. Na proximidade iminente de sua morte, Jesus reuniu os discípulos para a ceia de despedida. Segundo os quatros Evangelhos, indistintamente, Jesus se amoldou de todos aos quadros da Páscoa judaica. Esta cerimonia se deu na cidade de Jerusalém, e, de acordo com as regras  tradicionais , os próprios comensais é que a prepararam. No primeiro dia do ázimo, eles encontraram um homem levando uma bilha d’água, abordaram por indicação do Mestre, pedindo-lhe que os levasse ao dono da casa onde Jesus comeria a Páscoa com os seus discípulos.  
Jesus quis comemorar, com a cerimonia judaica de uma ceia pascal, a derradeira reunião com os discípulos, às vésperas de sua morte. Com isto provou sua fidelidade à tradição de seu povo, preocupando até mesmo com essas observâncias, quando tinha certeza da morte próxima. Era o coroamento de uma vida inteira passada naquela submissão à lei de que fala o apóstolo Paulo, em perfeita coerência com o passado, e que nada tinha de encenação casual ou improvisação fortuita. O cristianismo que daí brotaria resultava de cepa vigorosa e milenar que fora um dia plantada pelo próprio Deus.
Tudo na vida judaica deflui como uma liturgia na sucessão regulada de ações e de bênçãos. A ceia, a prece de ação de graças, a bênção do pão e do vinho. Jesus na ceia, partiu do assentado costume  religioso da santificação das refeições. Nenhum israelita se põe a mesa sem antes dar graças. Com o pão partido e distribuído, a bênção reveste um caráter comunitário. Concluía –se a refeição com o cálice de bênçãos, berahá, pronunciada sobre uma taça comum, que ia depois de boca em boca. Precedia um curto diálogo, que foi a matriz do diálogo eucarístico dos cristãos: Demos graças ao Senhor. Amém. Esta forma foi cantada por Jesus na última ceia.
O Talmude traz, no capítulo das bênçãos, a descrição das refeições de fraternidade, as haburot, que os rabinos costumavam realizar com seus discípulos para reunir a comunidade.
Jesus teria seguido esse ritual. Em cada um desses momentos solenes, revivia o israelita  a realidade de seu êxodo, a sua caminhada histórica rumo à suprema libertação. Mas, a ceia do Mestre, há um toque de profunda melancolia, pois nela se projeta a sombra de sua morte, que se aproxima. De si, toda ceia pascal deve ser uma refeição festiva. Cada conviva bebia pelo menos quatro copos de vinho. Cantavam-se salmos, saboreava-se o cordeiro pascal, e evocava-se o reino prometido e vindouro. A Mischná lembrava a todos a transferência do cativeiro à liberdade, da tristeza à alegria, do luto à festa, das trevas ao grande dia: da servidão à redenção. Apesar do presságio sombrio da morte, pode-se dizer com segurança que, no espírito religioso do Judeu Ieshuá de Nazaré, reinou, naqueles instantes de sua haburá de despedida, uma grande paz e serenidade interior. Ao reviver pessoalmente tudo quanto Deus realizara por seus antepassados, Ele se sentiu liberto de qualquer temor, na certeza profunda de que, conforme Isaías, “o que agrada a Javé será realizado por ele e, após os tormentos de sua alma, verá a luz e se encherá de alegria.”

O biblista S. Aalen, corrigindo exegeses anteriores, mostrou que, para interpretar o verdadeiro caráter da última ceia, em vez de recorrer a mística helenista, é muito mais válido e decisivo atender as concepções tradicionais do judaísmo contemporâneo de Jesus. Recorda especialmente as que se vinculam ao mestre Akiba e a sua escola rabínica. Resulta  daí, então, que a ceia há de ser entendida no contexto histórico- religioso de Israel  definir-se , antes  de tudo, como um sacrifício de aliança.  Essa é, na realidade, a sua significação original. Nem é de se conceber qualquer mudança substancial de concepção, ainda quando se sabe ter havido uma profunda influencia do helenismo na Palestina. É nesta perspectiva que se deve encaixar a descrição do papa Paulo VI, que, em 1971, a apresentava banhada numa atmosfera suave e dolorosa, profunda e aberta, fortemente humana e requintadamente espiritual. Na sua genuína moldura judaica, ele refulge com toda a força de seu surrealismo evangélico, para usar ainda palavras do Papa.  Uma coisa é certa: o toque  de alegria que dela ressalta provém  do componente escatológico. Pois, como toda ceia pascal judaica, alude ao banquete messiânico. À hora do quarto copo de  vinho, cantava-se a segunda parte do Hallel, em que se exprimia a esperança da restauração messiânica. Obedecendo rigorosamente a esse ritual, Jesus viveu todo o simbolismo dessa celebração com a intensidade própria dos momentos mais importantes da vida, louvando a Javé, o Deus de Israel, que concedera a seu povo o privilégio de conservar, ao longo da história, a chama viva da fé e da esperança.

Reflexões Pascal.

Um comentário:

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