terça-feira, 1 de março de 2011

Quero pintar uma rosa





Rosa é a flor feminina que se dá toda e tanto que para ela só resta a alegria de se ter dado.

Seu perfume é mistério doido. Quando profundamente aspira toca no fundo íntimo do coração e deixa o interior do corpo inteiro perfumado.

O modo de ela se abrir em mulher é belíssimo. As pétalas têm gosto bom na boca, é só experimentar. Mas rosa não é it. É ela!

As vermelhas são de grande sensualidade. As brancas são a paz de Deus. As amarelas são de um alarme alegre.

As cor de rosa são em geral mais carnudas e tem a cor por excelência. As alaranjadas são produto de enxerto e são sexualmente atraentes.

Preste atenção e é um favor: Estou convidando você para mudar-se para um reino novo.

Já o cravo tem uma agressividade que vem de certa irritação. São ásperas e arrebitadas as pontas de suas pétalas.

O girassol é o grande filho do sol. Tanto que sabe virar sua enorme corola para o lado de quem o criou. Não importa se é pai ou se é mãe. Não sei. Será o girassol flor feminina ou masculina?

A violeta é introvertida e sua introspecção é profunda. Dizem que se esconde por modéstia Não é. Esconde se para poder captar o próprio segredo. Seu quase não perfume é glória abafada mas exige da gente que o busque. Não grita nunca o seu perfume. Violeta diz levezas que não se pode dizer.

A sempre viva é sempre morta. Sua secura tende à eternidade. O nome em grego quer dizer: Sol de ouro. A margarida é florzinha alegre. É simples e a tona da pele. Só tem uma camada de pétalas. O centro é uma brincadeira infantil.

A formosa orquídea é exquise e antipática. Não é espontânea. Requer redoma. Mas é mulher esplendorosa e isto não se pode negar. Também não se pode negar que é nobre porque é epífita.

Epifitas nascem sobre outras plantas sem contudo tirar delas a nutrição. Estava mentindo quando disse que era antipática. Adoro orquidias. Já nascem artificiais. Já nascem arte!

... O crisântemo é de alegria profunda. Fala através da cor e do despenteado. É flor que descabeladamente controla a própria selvageria. Acho que vou ter que pedir licença para morrer. Mas não posso, é tarde demais. Ouvi o “Pássaro de Fogo”- e afoguei me inteira. Tenho que interromper porque, eu não disse? Eu não disse que um dia ia me acontecer uma coisa? Pois aconteceu agora.

Clarice Lispector

5 comentários:

Chica disse...

Que maravilha de texto esse.Não o conhecia!Que teu MARÇO seja lindo e com tudo de bom,beijos,chica

Élys disse...

Os textos de Clarice Lispctor são sempre encantadores e esse não poderia ser diferente.
Beijos.

claudete disse...

concordo com Chica. Parabéns pela sensibilidade da escolha do texto.Abraços.

Nilce disse...

Lindo o texto.
Sou sempre rosa, de todas as cores e de todos os perfumes.

Bjs no coração!

Nilce

O meu pensamento viaja disse...

Muito lindo este texto.
Curiosamente, há uma definição, a do crisântemo que, em Portugal, não se aplica de todo.
Cá, o crisântemo atinge a sua pujança máxima em Novembro e é, por excelência, a flor dr homenagem aos mortos. Entristece-me muito, não gosto deles.
Beijos,
Nina

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