quinta-feira, 30 de setembro de 2010

As feridas do homem de hoje. Parte 1


Ancorados numa "fiabilidade" fundamental, que é a do cristão, podemos agora 
meditar sobre as infidelidades do homem de hoje. Infidelidades do homem? 
Já sobejam na Bíblia. O Gênesis, que canta e ensina tão extraordináriamente a 
"fiabilidade" do mundo, abre nossos olhos para uma segunda realidade de 
dimensão quase igual: Um mundo que o homem transtornou por sua vontade
desordenada de poder. E a criação ficará entregue à vaidade, ao poder do nada:
Ela geme e sofre como que dores de parto. (Rm  8, 18-22) São Paulo gritou em 
aflição: Tenho uma grande tristeza e uma dor incessante em meu coração. Dois
mil e dez anos depois do nascimento de Cristo, as feridas do mundo continuam
causando tristeza. É necessário ter a coragem de olhar de frente, embora sabendo 
que nada faremos senão tocar- lhes a superfície.

A violência.

O mundo de hoje é um mundo de violência. Esta, certamente. não é sempre condenável
por ser necessária para liberta aquele que está sendo oprimido. Na verdade, vivemos num mundo de luta permanente, seja luta entre etnias, seja entre classes, prega-se a violência como motor da história. Estamos num mundo onde não só a violência existe, mas onde é também justificada. No discurso que havia preparado para a recepção  
de seu prémio Nobel, e que nunca pronunciou, Solzenitzin escrevia:

"Nosso século XX demonstrou que era mais cruel que os séculos precedentes (...)
Estamos no século XXI e a história continua... Nosso mundo está hoje dilacerado 
por paixões da idade das cavernas: A cobiça, a inveja, o ódio, que, no passar do tempo, adquiriram novos e respeitáveis nomes, como luta de classes, ação das massas, conflito racial, luta sindical e por aí vai... A recusa primitiva  a qualquer compromisso tornou -se um princípio, e a ortodoxia é tida como virtude. Ela exige milhões de sacrifícios por uma incessante guerra civil. Tenta convencer-nos, com grande estardalhaço, que os conceito universais de bondade e justiça não existem, são relativos e variáveis. Daí a regra:"Faze sempre o que julgas mais útil a teu partido". Assim que um grupo percebe que é o momento de apoderar -se de um pedaço, ainda que supérfluo ou imerecido, toma-o de um golpe, e tanto pior se o resto da sociedade venha a sofrer as consequências.





Alguns poderão pensar que estas frases têm em vista sobretudo o mundo e os 
partidos comunistas. Entretanto, Solzenitsin se dirige da mesma forma ao mundo livre.
Visto de fora, o volume dos sobressaltos da sociedade ocidental está próximo do limite
além do qual o sistema não conseguirá manter o equilíbrio e desmoronará. A violência,
cada vez menos obstruídas pelas restrições impostas pelos séculos de legalidade, põe 
fogo no mundo inteiro, pouco se importando de saber que a história tem demonstrado 
muitas vezes que esse processo é  estéril. E completando, não só a força bruta triunfa
aparentemente, mas é também justificada com entusiasmo.

Tons proféticos, tanto mais impressionantes pois que o autor de ARQUIPÉLAGO GULAG
escreveu estas linhas  em 1970, quando ainda não havia deixado a União Soviética.
E sabemos que infelizmente Solzenitsin tinha razão. A violência realmente invadiu o
mundo. Ou, como ele mesmo diz: O mundo está sendo levado pela convicção cínica
de que a força tudo pode, e a justiça nada. Acrescente-se a isto que a violência gera
o medo, e que este é um recurso utilizado para pressionar. E até que ponto conseguirei amedrontar-te? Precisamos descobrir novos caminhos onde o espírito, sem perder seu senso crítico, e o coração aberto, em vez de estimularem os instintos agressivos de
ambição, poder, nacionalismo estreito, raça, sexo etc. saibamos orientar e integrar 
dentro de finalidades pessoais e sociais mais elevadas.

P.S. Alexandre Solzenitsin escritor russo e prémio Nobel de literatura, autor do livro arquipélago Gulag e outros. Morreu aos 89 anos, no dia 03 de Agosto de 2008. 

    





2 comentários:

Chica disse...

Reflexivo teu post.A violência, infelizmente nos ronda em todos os lugares e é tudo o que não queremos pra nossas vidas.um beijo,tudo de bom,chica

Tatiana disse...

Puxa...super obrigada pela sua visita!!
Quer dizer que voce conhece Venâncio Aires..rsrs??
Bjs.

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